Há um lugar para onde meus pensamentos sempre voltam. Minha memória floresce sempre que lembro da terra vermelha, das árvores retorcidas e do rio que lá margeia: Paraopeba.
Cavalguei ao encontro de suas águas centenas de vezes, montando em Torresmo ou Tornado, meus cavalos, puxado na charrete pela mula Florinha, ou caminhando com amigos, sempre acompanhado pelos meus cachorros.
Ali, na margem, encontrei consolo e confronto.
Chupei mexerica, tomei vinho, e enquanto o rio seguia seu curso, perdi a conta das vezes que ele refletiu mais do que meu rosto — refletiu o que eu sentia, o que eu temia. Às vezes, eu sentia que suas águas aliviavam o que me pesava, como se enterrassem na lama os segredos que só ele sabia.
Foi lá que aprendi que o homem precisa ser forte. Para enfrentar a seca, não basta ter bons pensamentos; é o corpo que fortalece o espírito. É suportar o frio do amanhecer e o sol escaldante no corpo do dia. É levantar a vaca enfraquecida, erguer a pacetta e jogá-la contra a terra ressequida. No cerrado, força não é virtude — é necessidade.
Mesmo depois de ter partido, algo lá — o cerrado, o rio, sei lá — ainda me imanta sem que eu entenda. Às vezes, perco o sono; às vezes, sonho. Às vezes, quero esquecer das obrigações, da minha profissão, das paixões. De algum jeito, algo continua a me puxar para aquele lugar.
Saí de lá não porque quisesse, mas porque precisava. Eu amava aquele lugar de um jeito que me consumia, era um peso, um fardo que, em algum momento, me tornou insustentável.
Partir não significou encontrar a solução, mas talvez o único caminho que me restava. A saudade não me faz mais forte. O que deixou em mim é essa necessidade de recomeçar, de aprender a viver fora daquilo que era meu mundo, e ao mesmo tempo, me questionar o que realmente me segurava lá.
Sinto-me agora condenado a uma existência dividida, onde, em algum canto de mim, ainda estou lá. Algo ficou preso nas margens daquele rio. E agora, onde quer que eu vá, sou como uma alma que ainda vaga, a penar entre o que perdi e a dor de não poder voltar. Ao deixar o lugar que tanto amei, tornei-me, sem querer, uma alma a penar — entre o que fui e o que sou. Angueretá.
